Apresentação do livro:
E se a orelha disser porque não sou olho
Com a presença da autora Rita Anuar
Sábado | 09 de maio | 16h00
Entrada livre
Rita Anuar é autora e investigadora, doutoranda no Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Atualmente, desenvolve uma investigação que visa aprofundar as noções de conhecimento e imaginação nas obras de Maria Gabriela Llansol e Walter Benjamin, atendendo, em particular, à pertinência da figura da criança e ao lugar da infância nos escritos de ambos. Tem participado em colóquios e conferências no campo da literatura e das artes plásticas, a nível nacional e internacional, destacando-se, recentemente, a participação no IV Colóquio Internacional de Poesia Portuguesa Moderna e Contemporânea, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2025). Tem colaborado com publicações no campo da literatura e das artes visuais, bem como desenvolvido atividade como curadora de exposições em espaços e instituições nacionais. Dedica-se também à redação de textos para exposições de artistas contemporâneos. "E se a orelha disser porque não sou olho" é o seu primeiro livro de poesia, editado pela editora Urutau em 2026.
Sobre o livro:
A tua imagem a juntar papéis, a erguê-los como paredes e a riscá-los, dias a fio, durante anos, com canetas coloridas roubadas de supermercados. Agora sei, que, ao toque amoroso das tuas mãos, as canetas se faziam tesouras. As tesouras com que, à falta de dentes — poeta desdentada —, recortas versos de folhas caídas que depois colas com cuspo, nos buracos da carne. E tua árvore genealógica brota em copa, como uma nuvem de clorofila e purpurina. Lembro-me de, numa manhã de Agosto, em Sines, ver-te de touca de natação na cozinha, a recortar cartolinas amarelas, rosa e verdes. A casa é um organismo. Precisa de rotinas de cuidado diário: composição e compostagem — processos biológicos através dos quais as poetas transformam a verdade numa substância semelhante ao solo. O húmus é a “trama da pele”. É um “ainda”, o “ainda” do que é recortado, como um poema ou um desenho. A compostagem e a composição, parto e invenção, são costuras universais. Ligam infinitamente o mundo para o manter vivo. Só elas, as verdades sujas, não morrem. Compostar e parir são também gestos de vidente. Enquanto atos de fé, acontecem numa espécie de confiança no que depois se tornará visível. As videntes vêm com o ouvido o que espera ser dito para nascer.
Raquel Luís





